GUARDANAPO DE BUTECO um blog de Kleber Felix


O ultimo post

Deixo de escrever por aqui, alguns problemas com a uol e perdi meu email, o que usei pra abrir essa conta, a partir de hoje tô no blogspot.

http://deumjeitoblues.blogspot.com

Por enquanto esse blog fica como tá, até eu resolver o que faça com os textos postados. Pode crê.



Escrito por Kleber Felix às 15h04
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Meu humor é uma piada

Engraçado. Algumas pessoas vieram me dizer que leram o “GATOS NO CIO NÃO PEDEM PERDÃO”, uns se identificaram com as pegadas mais blues e melancólicas, mas a maioria disse ter rido muito com as ‘histórias’ do Feline. Engraçado, da ultima vez, quer dizer, com o ultimo livro eu só ganhei fama de pornográfico, é claro que tô falando do lance aqui em Dourados, agora tão me achando engraçado. Engraçado, me vejo como um puta cara mal humorado, mesmo quando bêbado, normalmente só me permito rir ao lado dos amigos, muitas vezes das mesmas velhas piadas, sempre achei meu humor uma piada, de modo que o Feline também foi construído meio assim. Li esses dias o livro depois de pronto, numas de achar erros de digitação a serem corrigidos na próxima edição, encontrei uma porrada deles. Engraçado, me peguei tentando imaginar em quais passagens eles riram. Só agora tô conseguindo de fato me distanciar um pouco da parada, fico achando que eu também iria rir de algumas passagens, talvez das mesmas que eles riram. Engraçado isso, legal, pros que riram, legal pros que sacaram a melancolia blues, legal pros que ainda (espero que agora, ainda mais) continuam me achando um bosta pornográfico sem poeticidade.

 

Pra quem tiver em Dourados e for afim de segurar um exemplar, por enquanto tem alguns disponíveis na “Revistaria Estilo”, aquela banca na Marcelino Pires em frente as Casas Bahia, ao lado duma loja de calçados, ou então podem pegar direto comigo, é só dá um toque. Pra quem tiver em outro canto, posso enviar pelo Correio. É esse o meu email: kleberfelix_@hotmail.com



Escrito por Kleber Felix às 16h56
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Rascunhos do mesmo

 

"Uma porrada de tempo longe desse guardanapo, então fica com esses rascunhos que ando pescando dumas folhas amareladas antigas pra caralho, num são grandes coisas, mas dá pra forjar um recomeço."

 

"Um dia,

Vitimadas pelo seu carisma as pessoas sorriam.

Agora, cê vomita no meio fio e recusa qualquer espécie de ajuda. Cê esqueceu de Deus e o Cristo de gesso na parede cria teias de aranha, seu ateísmo chegou no limite. Deus te esqueceu. As mulheres te esqueceram. Cê fuma demais, bebe demais. Cê leu livros demais."

 

"Feito um idiota, sim, um idiota relendo mensagens bobas no visor do celular, mensagens idiotas do tipo: “Acabei de ver o filme tal”, “Vamô sair hoje?”, “Sonhei com vc essa noite” e todas elas terminavam com um idiota “Eu t amo”. Quanto dura o amor? Por que acaba, o amor? Perguntas que só um idiota pénabundeado tenta responder.

Comer todas, um pinto e uma buceta, nada mais. Olhar canalha e sedutor noite adentro, cantadas infalíveis, bucetas impossibilitadas de dizer não.

Mas não. Sem ela eu sou só um idiota relendo antigas SMSs no escuro do quarto."

 

"Não sei em que ponto o que era pra ser foda começou a brochar. Deve mesmo haver algo de muito errado comigo, sempre houve, mas parece que antes, ainda existiam algumas estratégias de fuga, alguns refúgios seguros e nenhum deles se assemelhavam a um canto escuro do balcão dum boteco sujo qualquer. Como quem tem um anjo, saca?Como quem ainda sabe o caminho de casa e segue tranquilo, por vezes olha pro céu e adormece ouvindo as canções mais otimistas do Raul."

 



Escrito por Kleber Felix às 20h54
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Amanhã, no máximo depois, volta a escrever nessa bagaça.



Escrito por Kleber Felix às 17h45
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As mães tem sempre razão

 

"Minha mãe leu seu livro." - ela me disse sorrindo bonito.

"Ah, que legal." - devolvi o sorriso.

"Legal nada, ela achou uma merda." - gargalhou.

Fiz o mesmo babando conhaque.



Escrito por Kleber Felix às 13h26
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Triste demais pra tentar ser feliz

 

Uma garota meio bêbada adentrando meu inferno particular, insinuando através de frases desarticuladas que se sentia bem ao meu lado, me fazendo crer que não sou assim tão antipático e desinteressante quanto imaginava naqueles dias.

Gripado e de ressaca num inverno brutal, dispensando cerveja numa festa universitária open-bar. Que merda eu tava fazendo ali? Fui de vodka.

Falei qualquer coisa simpática, mesmo sem sorrir, ela também não precisava de tal artifício.

“Tem refri aí dentro?” – ela perguntou.

Me pegou desprevenido tentando dizer não, deu um bom trago no meu gole.

“Vô lá pegá mais pra gente.” – foi.

Sem um copo em mãos me sinto desprotegido, meio canastrão entre a ‘galera’, digno de pena, até. Um ou dois versos beats, alguns acordes dum sax invisível, desolação, evitando cigarros, catarros verdes congestionando um pulmão falido. Às vezes tudo parece uma piada de mal gosto, um programa de tv dominical, um romance ruim, uma caixa de fósforos úmida no bolso da jaqueta e ela tá de volta, um copo cheio, ausência de sorriso e um olhar que só tem quem bebe vodka sem refri. Seguro forte o copo plástico como um rosário, ou uma arma. Um pequeno gole, depois, outro maior, me sinto melhor, ainda sei o caminho de casa.

“Tchau.” – ainda consigo ouvi-la dizer.



Escrito por Kleber Felix às 16h02
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Tô fora de casa, na verdade eu num tenho uma casa, talvez por isso me sinta em casa e percorro os bares e volto em companhia duma lata de cerveja, fumando quase tranqüilo. Escrevo qualquer coisa num caderninho e sempre leio alguns poemas desse livro do Bortolotto “Um bom lugar pra morrer”. Eu num tenho uma casa, tenho umas caixas com livros e alguns cds e uma bicicleta, me esperando bem longe daqui, é só o que eu tenho. Comigo, só umas mudas de roupas, um mp3 recheado de blues e esse livro “Um bom lugar pra morrer” que tem esse poema bonito pra caralho que li ontem e me flagrei emocionado. Seria bom se eu tivesse uma casa, um lugar onde eu pudesse deixar uma porrada de sentimentos dentro de caixas juntos dos livros e cds ou cadeados na garagem ao lado da  bicicleta. Mas num é assim, carrego os sacanas comigo, nos bolsos da velha calça.

 

Os dois

 

Eles eram dois

Mas nem sabiam que eram dois

pois os dois eram sozinhos

e se sentiam assim

sozinhos

os dois

Às vezes ficavam abraçados

testemunhando enchentes

e dividiam segredos e riam das bobagens um do outro

e telefonavam sempre

um para o outro

só numas de ouvirem

a voz

um do outro

Eles não eram felizes

E falavam alto nos bares

E contavam histórias estapafúrdias

os dois

Se encontravam

no meio de tanta gente

Eles sempre se encontravam

e sorriam tímidos um para o outro

porque eram sozinhos

os dois

e por um momento já não era tão assim

eles eram quase dois

mesmo sozinhos

assistindo filmes de madrugada

e pegando no sono

abraçando almofadas

sozinhos

bêbados

tomando comprimidos pra dormir

aviltados com a publicidade

que cercava a solidão dos dois

E eles queriam fugir

E ele queria entrar dentro dela

E ficar lá o resto de sua vida

não pra ser um

mas pra ser dois

definitivamente

de uma vez por todas

os dois

 

Mário Bortolotto

 

 



Escrito por Kleber Felix às 16h04
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Ontem... peraí, tô há uma porrada de tempo longe desse guardanapo, tô ligado, mas nem é por nada, é só blues, cê sabe. Às vezes é foda e eu num sou do tipo de dar muitas satisfações – não me orgulho disso – depois tem esse lance de lan house: moleques matando uns aos outros com tiros certeiros de escopeta, cadeiras se arrastando em meio a suas comemorações, a placa de não fume, não beba. Não bata punhetas. Saca punhetas tristes? A porra no lençol amarelado de tantas outras te mostrando o que é solidão. Nunca busque cumplicidade extrema, ela num existe. Isso devia tá na bíblia. Lamentações brother, às vezes é melhor dá um tempo. Rancor é diferente de mágoa, tá ligado? Isso também devia constar em algum versículo. Dizem que os anjos protegem bêbados e loucos. E crianças. Num custa acreditar, assim como também é bom crer que uma taça de vinho antes do almoço faz bem pro coração, tomemos um garrafão, é bom acreditar que conhaque ajuda a curar gripes, tomemos um litro sentados no meio fio. Às vezes é melhor dá um tempo. Cê devia saber. Depois da paz a tempestade. Parece que o mundo caminha mesmo pro fim, num vejo tv nem leio jornais, mas sem querer me mantenho informado. O azar é normal, sorte é uma espécie de milagre, mais uma pro livro sagrado. Dizem que “o fim é sempre um recomeço”, nem sempre, não quando o mundo acaba pra você. Pequenas perdas, algumas não tão pequenas assim, todas juntas se tornam algo imensamente nocivo, maligno, mortal. Num adianta chorar, é tudo uma questão de sorte e cê já se ligou o que isso quer dizer. Às vezes é melhor dá um tempo. Dizem que as palavras de Deus operam milagres. Se você acreditar. Talvez seja esse o problema. Quando todos os planos e sonhos – por mais ilusórios que sejam – vão por água abaixo, fica difícil acreditar. Talvez a Terra se torne apenas uma bola em brasas boiando no infinito. É preciso botar fogo no passado. Deus tá ligado e tá só dando um tempo. Cê sabe, às vezes é necessário dá um tempo.

Ontem, num bar qualquer tinha essa menina loira acompanhada duma amiga tipo loira de farmácia. A loira true já tinha comprado meus livros numa outra ocasião, passou a bola pra loira poseur. Segui de mesa em mesa, sorri falsamente pruns péssimos comediantes, é que eles tavam em bando, tavam em paz, riam, não necessariamente da minha cara, eram apenas sujeitos de pseudo-sorte. Tudo bem, tudo bem mesmo. De volta a mesa das loiras – que notei, tomavam whisky, a loira tingida, com energético, a loira-loira com um bocado de pedras de gelo. “Quero dar o de poemas pra minha amiga.” disse a loira, “Pode crê.” Respondi. Sacou uma nota de 20 e me entregou, o livro custa 5 e eu num tinha nenhuma dessas notas no bolso, fui até o caixa, entrei na fila e efetuei a troca. De volta, negócio fechado. Ela, a loira, me puxa pela blusa e lê no meu ouvido um dos meus poemas “Amigos de bar” (uma espécie de homenagem a grande “Amigos de copo” do grande Renato Fernandes) na seqüência leu a dedicatória rabiscada na folha de rosto pra amiga, disse que era a continuação do meu poema, num é lá um grande poema, mas o que ela fez com ele foi no mínimo transforma-lo em roteiro de programas dominicais, num lembro bem, nem faço tanta questão assim de lembrar, mas só pra você sacar, era mais ou menos assim: “Amigas de bar/ planejam sair/ não conseguem vaga no estacionamento/ bebem um pouco/ riem/ se divertem muito/ e são muito felizes/ ... o fim da noite é em off.” “O que é em off?” perguntei quase decepcionado, mais uma vez me puxou pela blusa e sussurrou no meu ouvido, aquilo sim foi um poema.

 

Às vezes fico em off desse blog. Às vezes dou ao tempo, tempo demais.  

 



Escrito por Kleber Felix às 14h58
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Suíte Blues

1

O nome dela é Carol, uma garota de pele branca com um par de olhos verdes fudidamente lindos, magra de estatura mediana, sempre sorrindo, um sorriso du caralho. É Carlos quem come ela e parece tá gostando um bocado, Carol por baixo mira o teto com nostalgia, na cabeça a imagem dum carinha assim desses que parecem que não se importam com nada que não tenha importância, um tipo escritor de livros ruins sem finais felizes, Fred seu nome. Carlos é um cara e tanto, desses de botar inveja na mulherada com gostos parecidos com os dela, um futuro promissor pela frente, carinhoso, alto, forte e bonito, vai gozar... pra tanto faz um bocado de barulho, deixa cair seu corpo de atleta sobre ela que apenas suspira, não gozou. Uma sensação estranha.

2

Fred é o nome do sujeito com um sorriso congelado nos lábios, há uma profunda inexpressividade nesse sorriso. Pamela é quem te paga um boquete debaixo das cobertas, é uma boa garota, tá dando o melhor de si já faz um tempo. Fred goza, assim, sem muito alarde, no sorriso congelado um brilho parece querer surgir, mas logo se desfaz pra dar um gole na garrafa de whisky. Pamela saindo debaixo das cobertas limpa da boca a porra de Fred, num gesto bem sexy, bonito de se ver.

- Sabe que dia é hoje né?

- Sábado ou Domingo, do contrário cê tá atrasada pro trabalho.

- É segunda, num tô atrasada ainda não, a noite vamô comemorar.

- Comemorar o que?

- Esqueceu?

- Acho que sim.

- Hoje é o nosso primeiro aniversário de namoro.

- Caralho, já faz um ano?

- Já meu amor, e vamô comemorar.

Era uma boa garota, a noite com certeza seria boa, mas o dia tava tão estranho, um velho blues começou a solar na sua cabeça, enquanto Pamela sorria em sua direção.

3

Carol tomou um banho frio pensando numa canção dos Beattles, depois que Carlos foi trabalhar.

Fred preparou um café e fumou alguns cigarros enquanto Pamela tomava um escaldante banho quente.

Carol reviu velhas fotas e leu antigos diários, almoçou batata frita, fumou um, como há muito não fazia, se masturbou, como há muito não fazia.

Depois do café Carlos sentou-se diante da máquina de escrever e tirou dela um conto, triste, muito blues, sobre um velho vivendo sozinho, fumando maconha e entrando numa bad, lembrando duma antiga namorada de olhos verdes fudidamente lindos e um sorriso du caralho, que adorava puxar fumo e transar depois.

4

Naquela noite Pamela dirigiu até um motel quase de luxo, Fred sorriu sem muita empolgação pro lugar, meio de pau duro. Suíte 23, disse a voz no interfone.

Suíte 22, havia dito um minuto antes prum outro casal: Carol e Carlos. Num tavam ali numas de comemorar nada, o caso é que Carlos era um rapaz muito romântico e vivia aprontando dessas. Carol sentia um frio na barriga, uma mistura de tesão e tédio quando seus olhos cruzaram com os de Fred...

5

Carlos cumprimentou o casal sorrindo, depois enfiou a chave no buraco da fechadura da suíte 22, Pamela fez o mesmo, deu um boa noite sorrindo, muito simpática, muito feliz e introduziu a chave no buraco da fechadura da suíte 23. Fred e Carol como que em transe assistem juntos ao filme preto e branco, veloz que passa nos olhos de cada um. Um filme sobre amizade e companheirismo, estrelando Carol, sobre sexo e bebedeiras, estrelando Fred, sobre brigas entre pessoas que se amam, um filme sobre o amor, que acaba com ambos correndo um pros braços do outro pra começar tudo de novo.

Carlos puxa Carol. Pamela faz o mesmo com Fred e cada casal adentra sua respectiva suíte.



Escrito por Kleber Felix às 22h49
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Como um personagem de filme

“E se te aceitassem? Tipo assim, se você conseguisse manter essa vida que cê leva agora, mas tendo um pouco mais de grana pra tomar whisky mesmo que barato ao invés desse conhaque presidente, se desse pra você comprar os livros que cê quer ler, os discos e bebida – que é só o que você sabe comprar – como cê acha que ia ser sua vida?” – ela perguntou, sorrindo, tava sempre sorrindo.

Dando a entender que a vida dum personagem dum filme que comecei a contar, tivesse sendo contada numas de introduzir uma resposta metafórica, comparativa e tal, prossegui até que o assunto fosse esquecido, ela nem percebeu.

Mas quer saber, garota?

Eu ia acordar meio dia, sempre meio dia quando tivesse sentindo que o início do dia é mais melancólico do que eu posso suportar, quando eu tivesse triste demais pra tentar ser feliz. Ia tomar um banho depois de sair da cama – de três em três dias – e preparar meu café da manhã: cinco cigarros e cinco xicaras de café. Escreveria qualquer coisa sonolenta, talvez postasse nesse blog, talvez o mandasse a merda pressionando a tecla “del”. Sacaria um livro e leria uma frase ou a parada toda ali mesmo em pé ao lado da estante, antes de devolvê-lo e sacar outro. Eu ia começar a beber – whisky – religiosamente as 18 horas, dependendo do meu humor, pequenas doses ou garrafas inteiras, fumaria muito às vezes pensando em parar assistindo os mesmos velhos e novos filmes. Sem mencionar o blues, mesmo por que tudo isso é blues, mesmo assim sairia de vez em quando pra ver um show de blues, uma peça de teatro que me chamasse atenção, às vezes beberia sozinho em bares lotados ou em botecos decadentes, vazios, tocando moda de viola. Enfim garota, tomada as devidas proporções, minha vida seria a mesma, de modo que ser aceito ou não, num é lá grandes mudanças, tanto faz, outra hora, se for afim, dependendo do meu humor disserto pra você sobre outros personagens de filme, mas agora preciso ir ali no centro tentar vender uns livros, cê sabe, a fita da máquina de escrever dá seus últimos suspiros, a garrafa de presidente só tem uma dose e andaram lançando uns bons livros por aí.



Escrito por Kleber Felix às 15h38
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A porra do amor é como uma  jam blues

Independe a técnica ou o quanto se sente, o quanto o blues corre nas veias, por melhor que seja pode num ser nada se num rolar um troço que palavra nenhuma define, quer chamar de mágica? Fica a vontade, é metafísico mesmo. Por mais intenso, num é todo dia que rola: aquele exato momento que pra você o mundo começa... a deixar de existir.

Primeiro vem aquela coisa que cê num consegue explicar. Uma espécie de tesão, mas cê sabe desde o início que num é só e o cara sempre tão calado fala como se nunca mais fosse ter outra oportunidade e tem essa coisa cardíaca, solando no peito, é o armagedom, o começo do fim.

Vai ver é mesmo coisa de poeta babaca e talvez todo mundo tenha mesmo um pouco de “poeta” e já nasça babaca, essa coisa de ver beleza no que um dia vai ser feio, apreciar a porra duma luz que depende dum interruptor que se queimar já era, sei lá né, pode pôr outro no lugar, o que dá a entender que num se gosta realmente daquela lâmpada, cê simplesmente gosta da claridade que ela te dá, se ama a idéia de tá apaixonado ou mesmo amando, não importa quem. Talvez por isso as batidas mais fortes num ritmo alucinantemente desconhecido, mesmo que cê teja preferindo o rock and roll no momento, mpb ou reggae, o amor é um blues improvisado e sem controle, mais uma vez pode chamar de mágica se quiser, dá no mesmo, ele vai te levar da mesma forma, a bordo dum opala envenenado por estradas alucinantes nunca sonhadas, antes de te largar no meio do nada sozinho pra morrer, não existe morte coletiva, mesmo que outros morram com você.

Enquanto dura cada nota é única, e juntas: um acorde que morre pra outras notas e mais acordes nascerem na sequência pra morrer depois e assim sucessivamente até o fim. Uma jam  blues é como uma história de amor, verdades improvisadas, o auge de bebedeiras festivas, que mesmo com a ressaca do outro dia continua em algum lugar dentro da gente, como mágica – se insistir – porque tem o ritmo, o feeling e só existe tréguas, nunca o fim... antes do fim, dessa coisa bonita de ver alguém dormindo e quando bêbado e sozinho ou mal acompanhado (nenhuma companhia parece digna) ter essa imagem martelando a cabeça, misturadas a tantas outras  – o simples caminhar do quarto pra cozinha atrás dum copo dágua – cê bebe demais e não há prazer algum nisso, nem mesmo o simples habito, tudo fora do lugar, horas se arrastando, diálogos travados com cachorros na madruga, com autores de livro depois da ultima frase ou acordes inesperadamente já conhecidos, personagens de velhas histórias em quadrinho ou a simples e habitual garrafa vazia. Besteirinhas banais do dia a dia, frases tolas, bocejos, essas coisas adquirem uma grandeza du caralho, e só então você sorri, amarelo –fudendo com a teoria toda sobre expressão de felicidade (ou falsidade) e essa coisa toda, um sorriso amargo de quem já acreditou em histórias demais, talvez por isso bebe... demais... talvez por isso as mesmas tantas palavras repetidas formando as mesmas frases que já não se precisa mais, acabou o improviso.

Mais uma vez aquela coisa que cê num consegue explicar, só que uma outra coisa, o último acorde soa, é o fim e cê sabe que nunca mais vai ouvir aquilo, não daquele jeito.



Escrito por Kleber Felix às 00h33
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Devia ser prosa (das mais rasteiras)

 

há tempos não arrisco um poema

tem essa menina chamada Camila

que escreve poemas como o diabo

e me fez pensar

há tempos eu num escrevo um poema

grande merda

conjugar os verbos na segunda pessoa

apertar o enter

digitar palavras que nunca vão ser usadas

no dia a dia

e dizer

tô escrevendo um poema

eu sou a merda dum poeta

quando

uma única palavra me martela a cabeça

um nome próprio

um poema

isso num é um poema



Escrito por Kleber Felix às 23h49
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Um pouco

 

“Como é que você lembra de mim?” ela perguntou, sorrindo. Que espécie de pergunta é essa? “É que eu mudei, como é que cê lembra de mim, daquele tempo?” Uma menina que sorria demais com All Stars coloridos. Ela num tava de All Star. “Sabe como eu lembro de você, naquele tempo?”. Eu num queria saber, mas ela falou assim mesmo, falou pra caralho “...um cara sempre tão tranqüilo, mesmo quando bêbado de pinga com refri.” Ela nunca soube a respeito da tempestade que sempre carreguei no peito que entre um gole e outro trovejava aqui dentro. “...um cara que sempre viveu com tão pouco...” Nunca precisei de muito. Nem por isso tive tudo. Alguns livros, uns CDs piratas, um violão que não afinava a mizinha, bem pouco mesmo. Nisso ela tinha razão, mas também mudei um bocado, hoje tenho mais livros e mais CDs e uma bike, uns filmes também piratas, uma gaita desafinada, o violão é outro, mas a mizinha também num afina direito. Um cara tranqüilo vivendo com tão pouco. “...e que escrevia poemas lindos de amor, te via como um romântico.” Vai ver eu sou mesmo, um babaca romântico e sem ambição. “...e isso é lindo, você é uma raridade.” Porra baby, e tímido pra caralho, é melhor a gente mudar de assunto, ainda tem um bocado de vinho e o tempo tá instável, é melhor num provocar, pode chover e eu sei, cê ainda é do tipo que gosta de brincar na chuva, pular poças dágua “...eu mudei, você parece o mesmo de anos atrás.” Ela tinha lá seus motivos pra pensar isso. Primeiro foi uns pingos, finos, outros vieram na seqüência, o céu fechou, dei uns goles no vinho enquanto ela tirava os sapatos, uma sandália de couro do tipo hippie, me puxou pela mão “Vem.” Fui, eu precisava de muito, ela podia me dar um pouco.   



Escrito por Kleber Felix às 00h29
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Eu num entendo nada de amor ou morte, mas rabisco frases que levam a outras frases, invento histórias e acredito nelas, histórias de amor, histórias de morte.

Eu num entendo de verdade de solidão ou tristeza, mas caminho sem rumo, por ruas escuras nunca antes visitadas, ouvindo repetidas vezes um mesmo blues nos fones de ouvido, cumprimentando cachorros, sozinho e triste.

Eu num sei se entendo de amizade ou companheirismo, mas escrevo e-mails que parecem cartas, ligo à cobrar no meio da noite, por que de certa forma preciso deles, dos amigos, companheiros.

Eu entendo de mentiras sinceras – alguém já disse isso – entendo de noites frias e passos sem pretensão, entendo de canções tristes e ausência, melancolia, babaquice, desolação, insônia, blues e baladas despedaçantes que insistem em tocar na minha cabeça. Entendo de bares lotados e caras bebendo sozinhos, de livros malditos que contém as respostas, sempre que necessárias, de repetir as mesmas histórias pros amigos, ser repetitivo nos textos. Entendo de garrafas de conhaque que parecem evaporar e de cinzeiros transbordando, de ficar ouvindo a chuva, pensando bobagens.

Eu num entendo porra nenhuma da vida.



Escrito por Kleber Felix às 23h29
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Eu sou um cara do interior, sempre vivi em cidades pequenas, nunca por opção. Metrópoles sempre me instigaram, nunca vivi no campo, mas sempre gostei da idéia dum retiro isolado de qualquer sombra de urbanidade, não acho que conseguiria por muito tempo viver longe da poluição, de prédios cinzentos, barulho de buzina, do ritmo da cidade, por menor que seja. Há uma contradição nisso tudo: sempre fui um cara sozinho – apesar dos amigos – de modo que uma casinha de madeira no cú do mundo seria bem vinda no momento. Plantaria mandioca, bananeiras, alface, couve e pimentão, criaria galinhas pra assassinar alguns de seus ovos de vez em quando, talvez uma vaquinha me cedesse um pouco de leite. Escreveria quando o tédio pintasse, livros que nunca seriam lidos, depois de terminados serviriam pra acender fogueiras em noites frias e sem luar. Bateria punhetas pensando em fêmeas distintas das mulheres-humanas, pois com o tempo, esqueceria suas formas. Diferente de Zaratustra, eu não retornaria a civilização, seria amigo de cães, gatos e quem sabe duma coruja também. A humanidade é podre e com o tempo eu voltaria a ser bicho, longe do barulho das cidades, do seu cheiro de morte e desolação.

(de: Gatos vadios esperam na esquina)

 



Escrito por Kleber Felix às 12h14
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